Madhurya Rasa Lila: por uma Espiritualidade Libertária, Pacifista e Unificadora

No mundo em que vivemos existem muitos movimentos sociais, inclusive culturais e espirituais, os quais têm suas origens e finalidades específicas. É importante lembrar que todos eles representam algum tipo de ação coletiva organizada, fundamentada em determinada ética e em certos princípios. Todos em geral visam algum tipo de transformação da sociedade ou de partes dela, sendo integradores para aqueles que o compõem enquanto movimento.
Um movimento pressupõe uma organização comunitária e/ou rede de solidariedade que se traduz em engajamento prático, o qual manifesta uma identidade coletiva. Compreenda-se, no entanto, que tal identidade não significa que não existam entre seus membros suas diferenças, mas apenas que eles se unem por defenderem um projeto de sociedade e/ou problemas a serem combatidos. Tal união, no caso específico de um movimento espiritual, se fundamenta em crenças espirituais, valores morais e na conexão com o sagrado.
O que aqui se apresenta define uma proposta de movimento que se propõe a congregar todos que desejam viver em paz com as diferenças que compõem a sociedade e em harmonia com a natureza, ao mesmo tempo em que se cultiva busca interior profunda por Amor a Deus (Krishna e/ou Shiva).
O que é Madhurya Rasa e seu Movimento
Aproveito de escritos anteriores, que já publiquei, para relembrar o que é Madhurya Rasa[1]. Ela é a forma de se relacionar com a Pessoa Suprema (Shri Krishna) na intimidade conjugal dEle (para com Ele). Dentro dela se reconhece que Srimati Radharani é a própria personificação da mesma rasa, estando presente, como essência da atração conjugal por Krishna, em todas as Consortes de Madhava. Dessa forma, o mundo em Madhurya Bhava pertence a Shri Shri Radhe Shyam.
Inclusive, no que se refere à atração conjugal por Keshava nos ambientes palacianos de Dvaraka, sempre que existe romance conjugal profundo com Ele, significa ter havido acesso à mesma essência. Trata-se da alma de Radharani sendo alcançada, na união mística da pessoa individual com a Pessoa Suprema, o que pode ser explicado por mecanismos do Tantra de Shiva Shakti. Por isso, estendo o conceito de Madhurya Bhava à atração conjugal por Mahadeva, o que só existe em Parvati[2].
“A União que não é fusão completa e eterna, porque, embora seja de fato um tipo de fusão, ela não representa a perda da identidade individual da alma, enquanto associada da Pessoa de Deus. Então, fundir-se com Deus, conforme o que aqui se descreve é, e ao mesmo tempo não é, autopercepção não-dual e/ou dual para com Ele[3]”.
Em tal vivência de Madhurya Bhava, parte-se, portanto, de uma percepção dualista/não-dualista (Bhedabheda). Trata-se de um misto de autopercepções impersonalista/personalista de Deus, de Radha Krishna e/ou de Shiva Parvati. Na percepção impersonalista (não-dualista), através da qual se pretende atingir sayujya moksha (ou mukti), tem-se como meta a liberação não-qualificada, por aniquilação da autopercepção individualizada da alma e autoidentificação completa com o Ser Supremo. Na percepção personalista, por sua vez, a meta última é samipya moksha, ou seja, a de se tornar um associado íntimo do Senhor.
“Ou seja, compreendemos que a alma se autorrealiza como associada íntima da Pessoa Suprema, reconhecendo-se como uma parte do Todo ao qual pertence, que existe em unidade com Ele, porém, sem perder sua associação íntima com a Pessoa Eterna de Deus – quem para nós pode ser chamado de Shiva, Krishna ou Vishnu, Harihara ou Shankaranarayana[4]”.
Portanto, o alicerce fundamental do Movimento de Madhurya aqui apresentado é a compreensão que ambas as visões de autorrealização são válidas. Além do que, muitos nomes e formas de Deus são coexistentes e nos inspiram a buscar nos aproximar quanto mais dEle seja nos permitido (por Ele mesmo). No caso específico de Madhurya Rasa, ela tem como sua fonte de origem, meio e fim, a lila de Radha Krishna. No entanto, o sentimento em si de Amor Conjugal, romântico e eterno amor, existe entre qualquer uma das formas e humores do Divino Casal (Sita Rama, Lakshmi Vishnu, Shiva Shakti etc). É uma questão de escolha do devoto, que segundo sua natureza espiritual, busque por seu espaço natural nos passatempos do Senhor, caso sua meta não seja circunscrita apenas a sayujya moksha (fusão impessoal com Ele). Isso tem importantes reverberações na vida do devoto, do que derivam as questões colocadas a seguir.
Madhurya Rasa e Espiritualidade Libertária
Entenda-se que uma espiritualidade libertária é, acima de tudo, respeitosa para com a diversidade de crenças religiosas e defensora de um convívio pacífico entre seguidores de diferentes religiões e arreligiosos. Isso é perfeitamente compreensível, a partir de trechos de um dos textos que dá origem localizada a tal movimento[5], onde Shri Krishna afirma que:
Há muitos que tentam entender o que Eu Sou e quem são os que Comigo pretendem se relacionar, no entanto, os caminhos que existem Sou Eu mesmo que manifesto, a fim de Me fazer conhecer. Poucos são os que pretendem a isto compreender, então, acabam esquecendo-se do que devem buscar através de algum de tais caminhos em particular. Há religiões e outras formas de Me manifestar para as percepções dos que desejo instruir por meio de tais formas de fazê-los perceber-Me e ao lugar onde Eu estou. Novos conjuntos de atitudes sempre se farão, pois, é cíclica e incondicional Minha intenção de Me fazer notar pela alma que há muito de Mim se afastou.
Ou seja, a partir da relação mais íntima que se pode ter com o Senhor (com Keshava Shiva), compreende-se que Ele se manifesta de diferentes maneiras, dando origem a múltiplas religiões. Além do que, dentro da vertente hinduísta que tem Krishna como a Absoluta Pessoa – o Vaishnavismo -, sabe-se que é possível expressar sintomas distintos de uma relação com Ele. Sobre isso, o Amado define: “Há diferença entre como algum dos Meus associados demonstra o que se passa em seu mundo interior daquilo que em outro alguém pode aparecer, pois cada qual tem algo a experimentar segundo o que se faz lhe pertencer”[6].
Sobre tal tema, abordado pela Ciência da Rasa-Tattva, já tenho alguns escritos, onde descrevo que “a palavra Rasa se refere ao conjunto de sensações dentro de uma relação transcendental com Deus, sendo Rasa-Tattva o princípio que rege essa relação transcendental com o Senhor”[7]. Regido por tal princípio, existe o sthayibhava de cada pessoa, o qual reflete seu apego por Krishna (ou como você preferir denomina-Lo).
“O sthayibhava é a primeira coisa que começa a surgir, às vezes muito leve e sutil, quando, iluminado por Rasa-Tattva, você volta a interagir com a Pessoa de Deus na eterna morada. Ele surge como um sentimento e um humor de apego recíprocos, que é bem específico à sua relação eterna com Deus. Quando alguém volta a ter acesso a Ele, através da Presença Eu Sou ou por ascensão espiritual, significa que esta pessoa retomou o sthayibhava característico à sua relação”[8].
Essa questão de um sentimento específico que caracteriza a relação pessoal da alma individual com a Pessoa Suprema nos mostra ainda mais claramente que é preciso tolerância religiosa entre as pessoas. Deus se mostra para nós de um jeito que nos pertence, assim como para todas as demais pessoas do mundo que tenham interesse em se relacionar com Ele. Temos que ser respeitosos com a multiplicidade de maneiras de nos relacionarmos com o Senhor, pois vem dEle mesmo a decisão de outorgar ao ser humano tão rica diversidade de expressões.

Madhurya Rasa e Pacifismo
Por pacifismo, entenda-se um conjunto de atitudes que resultam do sentimento de não violência (ahimsa) para com todos os seres. Afinal, estamos falando de uma condição existencial que, no âmbito do universo espiritual do qual estamos aqui tratando, se alcança através também de práticas de yoga. Segundo Patanjali[9], os oito membros do yoga são: yama (respeito aos outros), niyama (respeito a si mesmo), asana (harmonia com o corpo), pranayama (fluir da energia vital), pratyahara (controle de emoções), dharana (controle dos pensamentos), dhyana (contemplação) e samadhi (liberdade eterna). Produzi uma explicação em áudio sobre tais práticas (clique aqui).
O respeito aos outros (yama) se compõe de: ahimsa (não-violência), satya (verdade), asteya (não-roubo), aparigraha (não-cobiça) e brahmacharya (continência, moderação e castidade). Portanto, o pacifismo do Movimento de Madhurya se baseia em tal disciplina para com os outros, ou seja, a disciplina externa (segundo Patanjali). Afinal, a alma que está imersa em pensamentos de amor profundo por Krishna, não tem impulsos violentos contra ninguém, nem sente necessidade de faltar com a verdade e muito menos de roubar. Quando você está pleno de espiritualidade, sua vida está completa, sua abstinência é natural e não há cobiça em seu coração.
Isso porque, quando se atinge a contemplação (dhyana), a partir da consciência em samadhi (liberdade eterna), de forma mais contínua, o respeito aos outros (yama) já se fixou no coração do devoto. Dentro disso, é importante entender que o acesso a Madhurya Rasa Lila só acontece quando a pessoa, através de um conjunto de mecanismos, se despoja de interesses mundanos, “de modo a que ela possa trilhar o caminho que conduz à consciência individual à lila de Deus”.
Ao despojar-se assim do que a mantém sob forte influência de condicionamentos da mente coletiva não religiosa, a alma, que vive uma experiência corporificada, abre-se para descobrir seu mundo interior. Dentro dele são descobertos tesouros guardados, os quais irão estimular novas buscas e, portanto, aprofundamentos[10].
Dentre tais tesouros, existe um sentimento profundo de não violência (ahimsa), que precisa ser nutrido continuamente, mesmo enquanto ainda temos um corpo físico e, portanto, continuamos mantendo contato com os mecanismos da sociedade em geral. Madhurya lila é tão perfeita que não temos mais necessidade de competir com os outros por nada da experiência não espiritual. Sendo assim, nutridos por bhava de amor conjugal por Krishna (Shiva), não desejamos mais o mal, perdoamos nossos ofensores e entendemos as limitações das atitudes mundanas do ser humano.
Palavras Finais: Madhurya Rasa e União Espiritual
Voltando ao texto introdutório do presente artigo, quando mencionava um “tipo de ação coletiva organizada, fundamentada em determinada ética e em certos princípios”, referindo-me a um movimento que manifeste uma identidade coletiva, me referia a Madhurya Rasa Lila como elemento aglutinador. Por tratar-se de uma identidade compartilhada espiritual, a aglutinação proposta tem o mesmo caráter. Ela se fundamenta na multiplicidade de maneiras de perceber a Pessoa Suprema, o que depende de uma escolha do devoto. Importa que ele(a), segundo sua natureza espiritual, busque por seu espaço natural nos passatempos do Senhor (Krishna e/ou Shiva).
No caso específico de Madhurya Rasa, sua manifestação é naturalmente “respeitosa para com a diversidade de crenças religiosas e defensora de um convívio pacífico entre seguidores de diferentes religiões e arreligiosos”. Isso porque a Ciência de Rasa Tattva se baseia na aceitação de um sentimento específico que caracteriza a relação pessoal da alma individual com a Pessoa Suprema (sthayibhava). Sendo assim, o movimento aqui descrito é tolerante para com as necessidades espirituais e religiosas de cada alma, o que é também um elemento aglutinador.
Ademais, se o que se busca é uma experiência de união transcendental com Deus, através de “uma percepção dualista/não-dualista (Bhedabheda)”, existe um ponto de União com Ele que caracteriza a vivência da unidade com o Todo dEle, incluindo cada uma das almas viventes, estejam elas em corpos humanos, não-humanos, celestiais ou divinos. Tal União Espiritual produz pensamentos pacíficos nas nossas mentes, que resultam de manifestações naturais e espontâneas dos oito membros do yoga, incluindo não-violência (ahimsa). Sendo assim, proponho um movimento espiritual, em torno de tal movimento aglutinador – Madhurya Rasa Lila -, ao qual desejo dar conformação ideológica e prática.

[1]Rasa é o efeito cumulativo da performance dramática realizada por Deus (lila) sobre o público devoto que a testemunha, estabelecendo relações com a performance (segundo Bhakti-Rasa e o Caminho da Flor de Lótus, por Shri Krishna Madhurya, 2016). Em Rasa-Tattva (2014), Krishna diz ser “importante mencionar que, havendo rati(forte apego), ocorre também possibilidade de haver rasa. Rasa delimita o que existe como conformação particular em uma relação, o que resulta do que rati pode produzir. Desta forma, de diferentes maneiras, alguém pode relacionar-se com a Fonte de todas as relações”. Sendo assim, mencionam-se cinco tipos de rasa: śuddha(neutralidade), dāsya (servidão), sakhya(amizade), vātsalya (afeição parental) e mādhurya (doçura conjugal).
[2] Para viver a experiência de Shiva Madhurya, é preciso haver união perfeita com Ele na consciência da Sua Consorte (a Adi Shakti, Durga, Gauri).
[3] Do livro Shiva Tantra para a Libertação Espiritual: o Tantra da Pessoa de Deus (Bhagavan), por Shri Krishna Madhurya (2017).
[4] Idem anterior.
[5] Trata-se do livro Religião Bhagavata da Nova Era, de Shri Krishna (comentado por Shri Krishna Madhurya), publicado pela Editora Sétimo Raio (2014).
[6] Trecho do texto “Rasa-Tattva: princípios do amor divino”, obtido por Shri Krishna Madhurya, Ordem de Zadkiel (RJ), 2013.
[7] Para ler mais: https://srikrishnamadhurya.blogspot.com/2026/07/a-ciencia-de-rasa-tattva.html.
[8] Idem anterior.
[9] Patanajali compilou o Yoga Sutra, ver mais detalhes em: https://jardinsdekrishna.com/2021/08/08/yoga-para-a-vida-pratica/.
[10] Obtido do livro Bhakti-Rasa e o Caminho da Flor de Lótus, de Shri Krishna Madhurya (2016).
