A Ação e o Lugar no Verdadeiro Estado de Yoga

Dentre as muitas iluminações para a consciência humana que Krishna expressa através do Seu diálogo com Arjuna, no capítulo 18 do Bhagavad Gita, Ele distingue conhecimento, ação e agente de acordo com as distinções dos gunas.

Gunas só podem ser conhecidos através da distinção entre mente e sentidos. A mente e os sentidos juntos estão engajados com os objetos dos sentidos (gunas). Há uma interação constante entre o que vemos e sentimos no mundo ao redor com o que percebemos ao vermos e sentirmos.

Ou seja, a mente e os sentidos se retroalimentam. Na medida em que adquirimos compreensões mais complexas sobre a vida, seus significados também mudam. Nossas ações, as quais refletem o que somos e como pensamos, se transformam na medida em que atrelamos outros significados ao que vivenciamos.

Shri Krishna explica:

“A ação que é ordenada por escritura, realizada sem apego, desprovida de qualquer atração ou repulsa, por uma pessoa não ansiando por seu fruto, é chamada sattvika (BG 18.23)”.

Ou seja, sattvika é ação no modo da bondade. Sempre que alguém se permite a realizar suas atividades com precisão, porém sem estresse. Quando o que conta mais são os deveres para com a vida interior e a paz de espírito, porém, sem que se deixe de cumprir as obrigações assumidas.

Sempre que se faz é o que é preciso fazer, porém mantendo-se a consciência desapegada dos frutos que a ação poderá vir a oferecer. Ou ainda quando se atua no mundo, segundo as necessidades, sem nenhum tipo de aprisionamento da mente e das emoções para com o que se faz, está se atuando no modo da bondade.

Características dos Modos da Natureza

Sattvika é característico do(a) monje(a) compenetrado no seu serviço sem exigir recompensas para si. Ele também existe na pessoa que trabalha em qualquer obra que seja com cuidado, concentração e sem maldizer o que faz e/ou as pessoas ao redor. Tal modo da bondade torna o ambiente mais produtivo e amistoso e a ação mais honrosa.

“No entanto, a ação que é realizada com grande esforço por uma pessoa que anseia por diversão e cheia de egoísmo, é chamada rajasika (BG 18.24)”.

Em rajas, ou modo da paixão, há um esforço enorme para estar na “crista da onda” do que quer que seja. A pessoa quer ser o melhor naquilo que faz e/ou parecer ser o melhor custe o que custar. A motivação para se agir desta maneira é exatamente a conquista dos frutos da ação.

Deseja-se ser maior, melhor, mais qualificado, mais hábil, superior, conquistador etc. Faz-se o que se faz com a intenção de ser reconhecido e de chegar ao topo, independente de haver perda da paz, de precisar passar por cima dos outros, de desqualificar alguém. Quer-se algo para si, mesmo que seja preciso às vezes até mesmo destruir os outros e as circunstâncias que possam de alguma maneira atrapalhar a conquista.

Cabe mencionar que esse “algo para si” na sociedade contemporânea geralmente é dinheiro, fama, poder e coisas afins.

Não é saudável agir por motivações externas ao que existe de mais puro dentro de nós. É preciso localizar tal pureza e deixar-se movimentar através dela. Sattvika é mais condizente com as necessidades da alma, mas mesmo ela é também superada pela consciência que transcende aos modos da natureza. Isso é realmente necessário para que se possa viver com Krishna na liberdade do bhava de amor transcendental.      

“Essa ação, que é realizada em ilusão, sem considerar-se suas consequências, como perda e violência para si mesmo ou para outrem, nem se considerar se existe o poder necessário para realizá-la, é chamada tamasika (BG 18.25)”.

A ilusão encobre o que o silêncio interior nos permite ver nas circunstâncias, nos animais, nas plantas e nas pessoas. Por causa dela muita violência tem se expressado entre os povos. Mas, aqui Krishna chama atenção para tamas, o modo da ignorância.

Quando se age sem ter certeza do que se está fazendo e sem procurar saber do que se trata aquilo que se faz, age-se na ilusão dos sentidos. A vida é cheia de detalhes e, embora não se possa dar conta de todos eles, é necessário conhecer ao máximo o que nos envolve, de modo que nossas ações sejam o mais proveitosas possível.

Porém, a preguiça e a procrastinação fazem com que muitas vezes a vida seja vivida meio sem significado claro. Isso também é característica de tamas. Faz-se o que é preciso ser feito de modo imperfeito, com má vontade e sem se preocupar com as consequências do que se faz.

Age-se para com as pessoas de maneira desrespeitosa, sem nem prestar atenção nas necessidades delas. Atua-se com descaso pela vida, pela natureza, pelo planeta. Desrespeitam-se os ambientes, as casas, as cidades. Sujam-se os espaços, destroem-se as alegrias. Enfim, faz-se mal uso da experiência que serve acima de tudo para um fim maior.

Esse fim é o serviço em devoção a Krishna (Shiva), a Pessoa de Deus. Para servi-Lo, inicialmente, é preciso conhece-Lo. Os ensinamentos dEle para Arjuna, que estão no Bhagavad Gita servem para todos.

O lugar certo para se estar

Dentre os ensinamentos dEle, aprendi que cada um está no lugar em que deve estar a cada momento, comentário este que ouvi de Krishna em certa ocasião. Tentando desenvolver um raciocínio em torno de tal afirmação, reli trechos da fala dEle a Arjuna, em um dos quais, o Amado diz:

“Para aqueles ascetas, que estão livres do desejo material e da raiva, que subjugaram suas mentes e que realizaram o eu, a morada da liberação (brahma-nirvana) está presente ao redor (BG 5.26)”.

O que significa dizer que, quando nos liberamos do que parecem ser necessidades, mas que são apenas fatos ou objetos do mundo transitório, só aí temos condições de perceber o que é realmente preciso experimentar na vida. A liberação por Krishna mencionada (brahma-nirvana) nos acompanha sempre.

Sendo assim, o “você está no lugar em que deve estar a cada momento” que Keshava me falou, só pode ser vivenciado através da liberdade. Liberdade do desejo material e da raiva, por subjugação da mente, diz Ele.

Krishna nos esclarece melhor sobre a questão, explicando que “Quem é feliz dentro de si, que desfruta dentro de si e é esclarecido por si, tal yogi, realizando Brahman, alcança liberação (brahma-nirvana) (BG 5.24)”.

O “dentro de si” está sempre em nosso coração, mesmo que às vezes as situações pareçam difíceis de serem resolvidas. Com a pacificação da mente, no entanto, torna-se possível compreender fatos e objetos a partir de outro ângulo de visão. A visão do eu interior inclusive só pode ser acessada quando há autopercepção que favoreça o entendimento do equívoco que é desejar-se o material pelo material e irar-se por causa de um desejo não realizado.

Eventos e objetos devem ser conquistados segundo a necessidade do verdadeiro eu. Se este tipo de necessidade existe, ela é fidedigna e, portanto, virá a ser contemplada. Se não tem relação direta com o que o eu verdadeiro precisa realizar, então para que se preocupar com uma necessidade assim?

Ao se ter acesso a este eu eterno, convivendo-se com seu próprio pensamento transcendental e com Krishna diariamente, renuncia-se ao que é provisório na vida. Por isso, Ele diz:

“Quando uma pessoa não tem apegos pelos objetos dos sentidos ou pelas ações, e naturalmente renuncia a todos os desejos por prazeres dos sentidos, então diz-se que ela se tornou estabelecida em yoga (BG 6.4)”.

O Verdadeiro Estado de Yoga

Yoga é o estado da consciência situada na experiência que irá prevalecer às transitoriedades. O mundo linear desta época é cheio delas, as quais são perseguidas desesperadamente por quem não sabe viver sem as mesmas. Mas, o Yoga ao qual Krishna está se referindo é a plenitude do ser.

Atente-se a este aspecto da questão. É comum hoje em dia haver certa confusão em torno da palavra Yoga. Trabalhamos com ela em seu sentido mais pleno em nossos livros, dentro dos quais, Krishna também nos instruiu.

Em Mística da Experiência Religiosa Transcendental (2019), Ele com meus pensamentos dialogou enquanto eu escrevia o que Madhava queria dizer. Do que ali se escreveu, escolhi o seguinte:

“Tudo tem uma designação para que se possa saber, por meio de nomes, a cada coisa diferenciar. Apenas no não-qualificado Brahman, estou ausente de determinar ao que designa significados, de modo ao mundo de formas povoar.

Estas formas, de diferentes tipos e configurações, subsistem ou não ao meu jeito de expressar-Me. Se estiverem elas em Mim, enquanto transcendentais padrões, haverão de para sempre existir. No entanto, se apenas significam o que não transcende ao linear mundo das temporárias imprecisões, irão certamente em algum momento e/ou aspecto do universo desaparecer.

Mesmo assim, enquanto elas existem têm funções para existir, principalmente, se referem-se ao sagrado meio de contato comigo travar”.

Por esse motivo, não se deve cultivar desejos por tais temporárias imprecisões que irão desaparecer. Quem se devota a conhecer este não-qualificado Brahman, mas, ao mesmo tempo, sabe ser a Pessoa Suprema (Bhagavan) a Eterna Consciência de Deus, se apega a Ele e aos fatos e objetos que “haverão de para sempre existir”.

Temos escrito muito sobre estes últimos, quando nos referimos à lila eterna ou passatempos transcendentais da Suprema Pessoa. São os fatos e objetos vinculados a ela que merecem ser preservados nos nossos pensamentos e emoções.

Ao se vivenciar na prática este conhecimento, atinge-se o estado assim descrito por Krishna:

“Um yogi que tenha conquistado sua mente e que é perfeitamente sereno, permanece situado no Eu Supremo, no calor e no frio, na alegria e miséria, e na honra e desonra (BG 6.7)”. Sendo assim, esta pessoa desfruta de tal conquista, resguardando-se do desejo material e da raiva. Estando situado no Eu Supremo, ela “está no lugar em que deve estar a cada momento”, que é aquela afirmação de Krishna para mim.

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