Sai Baba de Shirdi: a Divina Presença

Tendo visitado recentemente a cidade de Shirdi[i], buscando maior proximidade de Sai Baba, acreditei ser essencial abrir espaço para divulgar algumas das glórias de conhece-lo. Selecionei trechos do Sai Satcharita[ii], os quais traduzi para o português (a seguir). Aproveito para divulgar um breve depoimento que dei sobre tal Divina Presença a um colega devoto indiano, que mora em Shirdi e mantém um canal sobre Sai Baba e a cidade (para ver, clique aqui).

Personalidade de Sai Baba

Foi graças a Shri Sai Baba que Shirdi ganhou importância. Vamos ver que tipo de pessoa era Sai Baba. Ele conquistou este Sansar (existência mundana), que é muito difícil e árduo de atravessar. A paz ou a calma mental eram o seu ornamento, e ele era o repositório da sabedoria. Ele era o lar dos devotos Vaishnava[iii], o mais generoso (como Karna) entre todos, a quintessência de todas as essências.

Ele não tinha amor por coisas perecíveis e estava sempre absorto na auto-realização, que era a sua única preocupação. Ele não sentia prazer nas coisas deste mundo ou do mundo além. Seu Antarang (coração) era claro como um espelho, e Sua fala sempre chovia néctar. Os ricos ou os pobres eram iguais para Ele. Ele não conhecia nem se importava com honra ou desonra.

Ele era o Senhor de todos os seres. Ele falava livremente e se misturava com todas as pessoas, assistia às atuações e danças das dançarinas e ouvia canções ghazal[iv]. Ainda assim, Ele não se desviou nem um centímetro do samadhi (equilíbrio mental). O nome de Alah estava sempre em Seus lábios. Enquanto o mundo acordava, Ele dormia, e enquanto o mundo dormia, Ele estava vigilante. Seu eu interior era tão calmo quanto o mar profundo, Seu Ashram não podia ser determinado[v], nem Suas ações podiam ser definitivamente determinadas; e embora Ele se sentasse (vivesse) em um lugar, Ele conhecia todas as transações do mundo.

Seu Darbar era imponente[vi]. Ele contava centenas de histórias diariamente, mas não se desviou nem um centímetro de seu voto de silêncio. Ele sempre se encostava na parede da mesquita ou caminhava de manhã, ao meio-dia e à noite em direção a Lendi (Nala) e Chavadi, mas permanecia sempre em contato com o Eu. Embora fosse um Siddha, agia como um Sadhaka[vii]. Era manso, humilde e sem ego, e agradava a todos.

Assim era Sai Baba, e como o solo de Shirdi foi pisado pelos pés de Sai Baba, ele alcançou uma importância extraordinária. Assim como Dnyaneshwar[viii] elevou Alandi, Eknath[ix] fez com Paithan, Sai Baba elevou Shirdi. Abençoadas são as folhas de grama e as pedras de Shirdi, pois puderam beijar os pés sagrados de Sai Baba e receber seu pó sobre suas cabeças. Shirdi tornou-se para nós, devotos, outro Pandharpur, Jagannath, Dwarka, Benaras (Kashi) e Rameshwar, Badrikedar, Nasik, Tryambakeshwar, Ujjain e Maha Kaleshwar ou Mahabaleshwar Gokarn[x].

O contato com Sai Baba em Shirdi era como nosso estudo dos Vedas e do Tantra; acalmava nosso Sansar (ciclo da consciência mundial) e nos levava à auto-realização. O darshan de Shri Sai era nosso Yoga-sadhana, e conversar com Ele removia nossos pecados. Lavar Suas Pernas era nosso banho em Triveni Prayag[xi], e beber a água sagrada de Seus Pés destruía nossos pecados. Para nós, os Seus mandamentos eram os Vedas, e aceitar (comer) o Seu Udi (cinzas sagradas) e Prasad (alimentos oferecidos para uma divindade) era purificador.

Ele era o nosso Shri Krishna e Shri Ram, que nos dava consolo, e Ele era o nosso Para Brahma (Realidade Absoluta). Ele próprio estava além do par de Dwandwas (opostos), nunca desanimado nem eufórico. Ele estava sempre absorto em Seu Ser como “Existência, Conhecimento e Bem-aventurança” (sat-cit-ananda). Shirdi era Seu centro, mas Seu campo de ação se estendia muito além, até Punjab, Calcutá, Norte da Índia, Gujarat, Dacca (agora em Bangladesh) e Konkan.

Assim, a fama de Sai Baba se espalhou por toda parte, e pessoas de todas as partes vieram para receber Seu darshan e ser abençoadas. Pelo simples darshan, as mentes das pessoas, puras ou impuras, ficavam imediatamente tranquilas. Elas obtinham aqui a mesma alegria incomparável que os devotos obtêm em Pandharpur ao ver Vitthal Rakhumai[xii]. Isso não é um exagero. Considere o que um devoto diz a esse respeito.

Imaculada Conceição de Sai Baba e Sua Primeira Vinda a Shirdi

Ninguém conhecia os pais, o nascimento ou o local de nascimento de Sai Baba. Muitas investigações foram feitas, muitas perguntas foram feitas a Baba e a outros, sobre esses assuntos, mas ainda não obtivemos nenhuma resposta ou informação satisfatória. Na prática, não sabemos nada sobre esses assuntos.

Namdev e Kabir não nasceram como mortais comuns[xiii]. Eles foram encontrados ainda bebês em pérolas; Namdev foi encontrado na margem do rio Bhimrathi por Gonayi, e Kabir na margem do rio Bhagirathi por Tamal. O mesmo aconteceu com Sai Baba.

Ele se manifestou pela primeira vez como um jovem de dezesseis anos sob uma árvore Neem em Shirdi, para o bem dos Bhaktas[xiv]. Mesmo então, Ele parecia estar repleto do conhecimento de Brahma. Ele não tinha desejo por objetos mundanos, nem mesmo em sonhos. Ele expulsou Maya (ilusão), e Mukti (libertação) estava servindo a Seus pés.

Uma velha senhora de Shirdi, mãe de Nana Chopdar, descreveu-o assim: este jovem rapaz, loiro, inteligente e muito bonito, foi visto pela primeira vez debaixo da árvore Neem, sentado num Asan (assento). As pessoas da aldeia ficaram maravilhadas ao ver um rapaz tão jovem praticando penitência severa, sem se importar com o calor e o frio. Durante o dia, ele não se relacionava com ninguém; à noite, ele não tinha medo de ninguém.

As pessoas ficavam se perguntando e questionando de onde esse jovem tinha surgido. Sua aparência e traços eram tão bonitos que um simples olhar bastava para conquistar a todos. Ele não batia na porta de ninguém, sempre se sentava perto da árvore Neem. Externamente, ele parecia muito jovem, mas por suas ações ele era realmente uma Grande Alma.

Ele era a personificação da imparcialidade e era um enigma para todos. Um dia, aconteceu que o deus Khandoba possuiu o corpo de um devoto e as pessoas começaram a perguntar-lhe: “Deva (Deus), por favor, pergunte de que pai abençoado é filho este rapaz e de onde ele veio”. O deus Khandoba[xv] pediu-lhes que trouxessem uma picareta e cavassem num local específico. Quando foi cavado, tijolos foram encontrados sob uma pedra plana.

Quando a pedra foi removida, um corredor foi visto, no qual quatro Samayis (luzes) estavam acesas. O corredor levava a um porão, onde estruturas em forma de boca de vaca, tábuas de madeira e rosários foram vistos. Khandoba disse: “Este rapaz praticou penitência aqui por 12 anos”. Então, as pessoas começaram a questionar o rapaz sobre isso. Ele as dissuadiu, dizendo que aquele era o lugar de seu guru, seu Watan sagrado, e pediu que o guardassem bem. As pessoas então fecharam o corredor como antes.

Assim como as árvores Ashwattha e Audumbar são consideradas sagradas, Baba considerava esta árvore Neem igualmente sagrada e a amava muito. Mhalsapati e outros devotos de Shirdi consideram este local como o lugar de descanso (Samadhi-sthan) do guru de Baba e se prostram diante dele.

Impressões Finais

Quando estivemos em Shirdi, pudemos tomar o darshan de Sai Baba, junto ao seu samadhi. Também visitamos essa árvore Neem sagrada, sob a qual ele costumava meditar. Conta-se que as folhas dela são doces, o que é algo miraculoso, já que as folhas do Neem são originalmente amargas. Estivemos no templo de Khandoba, uma forma regional de Shiva; e em todos os demais templos e recantos mantidos sob a guarda do Shirdi Sai Baba Sansthan Trust[xvi].

É incrível o poder que ele tem de nos inspirar devoção e amor, o que tornou Shirdi um lugar muito acolhedor para os devotos em geral. Há uma cozinha que fornece prasada para mais de 100.000 peregrinos diariamente, alojamentos para quem precisar e muitas outras facilidades. Em todos os lugares se percebe a Divina Presença de Sai Baba, doando bençãos e proteção, o que às vezes se propaga na forma de milagres na vida de quem tem fé e pureza de intenção.

Om Sai Ram


[i] Como chegar em Shirdi: https://sai.org.in/en/how-to-reach-shirdi.

[ii] Shri Sai Satcharita, por Govind Raghunath Dabholkar (Hemadpant). Shirdi: Shri Saibaba Sansthan Trust.

[iii] Devotos de Vishnu (Krishna).

[iv] Músicas populares, às vezes compostas para trilhas sonoras de filmes.

[v] Aqui o texto se refere a ashram como estágio da vida, os quais, no hinduísmo, são quatro: brahmacharya (estudante), grihastha (chefe de família), vanaprastha (aposentado) e sannyasa (renunciado).

[vi] Darbar se refere à audiência de uma pessoa que tem o poder da palavra.

[vii] Siddha é autorrealizado, sadhaka é o buscador por autorrealização.

[viii] Ver em: https://www.hindupedia.com/en/Sant_Dnyaneshwar.

[ix] Ver em: https://www.hindujagruti.org/history/80245.html.

[x] Localidades sagradas do hinduísmo na Índia, por serem associadas aos passatempos de Krishna (Rama) e/ou Shiva (Shakti).

[xi] Confluência de três rios sagrados: Ganges, Yamuna e Saraswati (este último é apenas espiritual).

[xii] Formas de Rukmini Krishna de Pandharpur, Maharashtra. Ver em: http://www.vitthalrukminimandir.org/.

[xiii] Poetas e santos do movimento de Bhakti, dos séculos XIII e XIV.

[xiv] Devotos do hinduísmo.

[xv] Uma forma de Shiva, adorada na região de Maharashtra e Karnataka.

[xvi] Mais informações em: https://www.sai.org.in/.

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