Bhakti Rasa e o Caminho da Flor de Lótus: Introdução

Existem caminhos com muitas finalidades, os quais permitem que alguém se desloque de um lugar a outro ou de uma condição a outra. Podemos pensar no caminho que me proponho a ensinar como o que tanto conduz entre lugares quanto entre condições. Em ambos os casos, quem é conduzido está deslocando-se em direção à Consciência Absoluta de Deus. O caminho a que me refiro é, portanto, um meio de a pessoa libertar-se em definitivo das limitações do ego humano.
Existem muitos caminhos com a mesma finalidade, mas, o que pretendo aqui apresentar, embora tenha inúmeros elementos de rotas preexistentes, é algo muito genuíno e sem igual. Este livro apenas introduz o que virá a ser melhor elaborado ao longo de um conjunto de escritos e práticas[1]. Tal conjunto constitui uma tarefa a que me proponho realizar, dentro de minha própria expressão pessoal em bhakti-rasa. Então, convém começar apresentando conceitos, para que o raciocínio que desenvolvo se evidencie por meio da clareza e da elucidação.
Bhakti Yoga
Bhakti é uma palavra que é empregada para designar o que se convencionou chamar de devoção ou serviço devocional. Shri Krishna, aqui reconhecido como a Pessoa que contém a Mente Absoluta, se refere à Bhakti-yoga em Seu diálogo com Arjuna, quando diz:
ye tu sarvani karmani mayi sannyasya mat-parah
ananyenaiva yogena man dhyayanta upasate
tesam aham samuddharta mrtyu-samsara-sagarat
bhavami na cirat partha mayy avesita-cetasam
Ou seja, “aqueles que renunciam a todas as ações por Minha causa e estão ligados a Mim, que Me adoram exclusivamente com Bhakti-yoga (devoção) através da meditação, cujas mentes estão absortas em Mim, tais pessoas, ó Partha, Eu rapidamente as elevo do oceano do mundo material que está associado à morte (Bhagavad-Gita 12.6-7)”.
Renunciar a todas as ações por causa dEle significa abandonar as necessidades que o eu pessoa estabelece apenas pensando em si mesmo. Então, com a consciência purificada, por meio da atitude meditativa, a qual acalma a mente e ilumina o coração, a alma corporificada direciona sua vida a serviço de Deus. Shri Krishna se refere a adorá-Lo com Bhakti-yoga (devoção), o que é um caminho que leva ao amor eterno. Esta qualidade de amor só se desenvolve na experiência de quem renuncia às necessidades meramente mundanas, as quais dominam as escolhas da pessoa humana ao ponto de ela distanciar-se completamente de Deus.
Relação com Pessoa de Deus
Ser elevado do oceano da morte que está no mundo material, por sua vez, significa voltar a viver o contato sagrado da alma com a Absoluta Consciência. Rasa[2] está localizada na condição mais elevada de tal contato e nem sempre pode ser compreendida pela mente humana. Alguns explicam o termo, dando a ele diferentes conotações. Eu pessoalmente compreendo rasa como a natureza de uma relação íntima e pessoal com Deus, a qual a alma eternamente vive em lila transcendental[3]. Toda alma quando se aproxima da Pessoa Suprema redescobre-se em uma conformação que lhe é específica e a faz encaixar-se em determinada rasa.
Muitos ocidentais talvez não estejam familiarizados com a ideia de uma relação pessoal com o Senhor. Desta forma, os que desconhecem o profundo significado do termo rasa, a princípio, precisam procurar entender a pessoalidade de Deus. Emprego de uma visão personalista da inteligência suprema, a qual contém o conjunto de todas as inteligências fragmentadas da alma. Todas as ideias relativas provêm de tal Sagrada Fonte, que é o referencial para que se possa compreender quando algo é relativo ou Absoluto.
Deus, sendo tal ilimitada consciência, pode mostrar-se como Pessoa para Seus devotos. Tal Pessoa não é, no entanto, como as outras pessoas, porque o Senhor contém toda a lógica. Ele é a origem e o fim de toda opinião, e todas as opiniões se encaixam em uma totalidade perfeita, mesmo sendo elas relativas. A totalidade perfeita é inquestionável, fazendo-se obvia para a compreensão do pensamento humano devido à sua perfeição. A Pessoa de Deus é a mais perfeita das pessoas e a única que conhece tudo e a todos.
Como toda pessoa, esta Suprema Personalidade também se relaciona com outras pessoas. Porém, sendo Ele eterno, Suas relações também são. Sendo também são. Sendo Ele as. nalidade tamb os. lgo Sendo Ele o arquétipo maior da alma, Suas relações são todas arquetípicas e espelham o que existe no mundo, dando conformação à vida da sociedade humana. No entanto, a mente da pessoa que se condiciona ao mundo independente dEle nem percebe este espelho. Por não o perceber, indivíduos e comunidades de indivíduos deturpam seus comportamentos e desenvolvem lógicas imperfeitas.
Bhakti Rasa e o Caminho da Flor de Lótus
Sendo assim, a vida humana se torna cheia de perturbações e, por consequência, de infelicidade. Conhecer a vida da alma que se emancipa como associada de Deus fornece outro referencial para a mente da pessoa humana. Saber se deslocar do ponto onde se está em direção à emancipação é valoroso e muito raro no mundo do jeito em que ele se encontra na atualidade. Bhakti-rasa é o caminho que conduz a alma à experiência da associação individual com a Pessoa de Deus. Associar-se com Ele é unir-se em definitivo com a perfeição da existência e a liberdade do sofrimento.

Este livro apresenta algumas bases sobre Bhakti-rasa, tendo sido escrito como subsídio ao processo de todo aquele que deseja conhecer melhor o Senhor. Ele se compõe de duas seções principais, as quais expõem a abordagem que se quer aqui colocar. A abordagem se inicia com uma apresentação mais detalhada do significado de Bhakti-rasa. Nela é tecida uma discussão a partir da qual proponho uma visão pessoal conclusiva. Partindo da compreensão que tenho, desenvolvo, então, a descrição do estado de espírito a que denomino flor de lótus.
Bhakti-rasa é apresentado como um conjunto de mecanismos, os quais despojam a pessoa de interesses mundanos, de modo a que ela possa trilhar o caminho que conduz à consciência individual à lila de Deus. Ao despojar-se assim do que a mantém sob forte influência de condicionamentos da mente coletiva não religiosa, a alma, que vive uma experiência corporificada, abre-se para descobrir seu mundo interior. Dentro dele são descobertos tesouros guardados, os quais irão estimular novas buscas e, portanto, aprofundamentos. O aprofundamento na experiência da alma é o cultivo da flor de lótus a que me refiro na segunda seção da obra.
A flor de lótus desta descrição ilustra a condição da alma humana que, esclarecida através da experiência da existência, volta-se para Deus. Este interesse pela Pessoa Suprema se expande, enquanto o botão da flor se abre, até que ele atinge o último estágio de sua conformação floral. Neste estágio, a alma transparece a quem a observa com atenção a condição espiritual que a caracteriza. Tal processo de abertura da flor de lótus envolve etapas de renúncia, o que conduz ao que Shri Krishna menciona quando ensina que:
kama-krodha-vimuktanam yatinam yata-cetasam
abhito brahma-nirvanam vartate viditatmanam
“Para aqueles ascetas, que estão livres do desejo material e da raiva, que subjugaram suas mentes e que realizaram o eu interior, a morada da liberação está presente ao redor (Bhagavad-Gita 5.26)”. Esta morada permite que possa haver acesso ao universo de rasa, o qual é ilustrado na última seção do livro.
Esta última seção foi construída a partir de minhas próprias experiências em Bhakti-rasa. Tendo conquistado o controle da mente, liberando-me de desejos materiais, realizei à Pessoa de Deus. Esta Suprema Pessoa se revelou para mim em dois humores e Suas formas correspondentes, os quais são conhecidos como Krishna e Shiva. Realizei que ambos estes nomes são expressões da Absoluta Consciência, a qual me deu pleno acesso à minha identidade transcendental. Tal acesso acontece na rasa da doçura conjugal (madhurya), de modo que as descrições das lilas e de seus significados se dá neste mesmo humor.

[1] A obra a que me refiro como “um conjunto de escritos e práticas” compõe as bases (ou alicerces) do Caminho da Flor de Lótus. Tal comunidade, escola e núcleo de pesquisa faz parte de minha eterna lila junto de Shri Krishna (Shiva) e tem objetivo de doar Conhecimento e experiência de busca pelo Mundo Divino e Transcendental a pessoas que povoam o mundo material.
[2] O ra de rasa é pronunciado como o ra de cara e o sa como o ça de caça.
[3]Lila transcendental é passatempo de Deus com Seus eternos associados. Está, portanto, situada além do espaço-tempo linear do mundo material, não podendo ser compreendida plenamente através do raciocínio cerebral. Este tipo de passatempo só pode ser experimentado pela alma que alcança o Senhor, realizando o conceito de Pessoa Suprema (Bhagavan).
